Resumo:
Estamos propondo uma reflexão sobre o “ser médico”, defendendo a medicina como uma ciência humana fundamentada na antropologia e na ética, acima da mera técnica. A abordagem ressalta a importância de reconhecer a fragilidade humana do médico e do paciente, tratando a doença como parte da biografia do indivíduo e não apenas como um defeito orgânico.
Quem é “o médico”?
Não é fácil definir “o médico”. Somos seres complexos. A cada dia fazemos novas descobertas de nós mesmos e mesmo assim, continuamos sendo mistério para nós e para os outros.
Para melhor nos compreender, precisamos estabelecer algumas de nossas características básicas.
Somos dotados de:
• A Mente e Inteligência: Antes de diagnosticar o corpo, o médico precisa ouvir a história. Muitas vezes, o que não aparece no exame físico, está gritando na fala do paciente.
• Vontade e Liberdade: Aqui entra o conceito fundamental da autonomia. O médico não é um objeto passivo; ele tem o “impulso de busca” e a liberdade de decidir sobre sua própria conduta. Essa liberdade, exercida com responsabilidade, é o que permite a adesão real do paciente a qualquer proposta de cura.
• Personalidade: Cada ser é único. Mesmo diante de uma mesma doença, a “qualidade pessoal” de cada um faz com que a experiência do adoecimento seja particular. O médico deve tratar a pessoa que tem a doença, e não apenas a patologia em si.
• Afetividade: Somos seres que sentimos. A sensibilidade e o cuidado do médico, influenciam diretamente na recuperação física. O acolhimento afetivo do médico é, muitas vezes, o primeiro passo para o tratamento. Somos frágeis e imperfeitos, compartilhamos a mesma natureza humana de quem cuidamos. Ser médico transcende a técnica; é um “ato de amor e dedicação” onde um ser humano cuida de outro. A cura envolve acolher o sofrimento e as emoções e não apenas eliminar sintomas físicos.
Nós, médicos, somos um ser: consciente, relacional, único e irrepetível, afetivo e sensível. Vamos nos deter agora, em sermos “um ser consciente”.
A Consciência é a capacidade de “conhecermos a nós mesmos”, e compreender nossa dimensão não apenas individual, mas também comunitária.
Podemos dizer que nossa Consciência tem suas dimensões: moral, ética, psicológica e a social ou comunitária.
Consciência Moral – O médico, ao discernir o que é “bom” para sua saúde e para a saúde do paciente, ele assume o compromisso com o autocuidado e o do “cuidar”, permitindo ao paciente ser honesto conosco e com ele mesmo sobre seus males.
Consciência Ética – Formada no respeito ao paciente, assim como aos seus direitos fundamentais, contidos no Código de Ética Médica. Vai além de seguir regras; é o compromisso genuíno com o bem-estar de outra pessoa, respeitando a dignidade e a autonomia dela.
Consciência Psicológica – Nos ajuda, como médico, a entender a subjetividade do sofrimento. O paciente vai conseguir expressar melhor sua dor, facilitando a nós médicos, um diagnóstico que considere o estado emocional.
Consciência Social (comunitária) – O entendimento de que “o homem não é uma ilha” é vital para nosso equilíbrio. A consciência de que nossas ações afetam o meio e as pessoas ao redor, nos torna mais participativos e solidários. A saúde deixa de ser um projeto individual e passa a ser comunitário. O paciente entende que estar bem também é uma forma de contribuir para o bem-estar da sua família e sociedade.
Agora, já podemos deixar de ver a consciência apenas como uma voz que nos culpa (o “juiz”) e passamos a vê-la como motivação para que a relação médico-paciente ganhe uma nova profundidade.
O ser humano e seus caminhos.
Para onde nós médicos caminhamos? Quais são nossos impulsos? A procura do bem, da justiça e da paz, ou da ganância, do prazer, do consumismo?
Chegamos no ponto central da crise da modernidade: o descompasso entre o progresso técnico e o amadurecimento humano.
Caminhamos por uma trilha onde as ferramentas (o “ter”) tornaram-se mais importantes que o artesão (o “ser”).
Para responder esses questionamentos sob a ótica do equilíbrio, podemos analisar os seguintes pontos:
O “Ter” como Atropelamento do “Ser”:
O progresso está nos “atropelando” porque transformamos meios em fins.
A tecnologia e a ciência são instrumentos para que a medicina seja exercida dentro da ética ou, tornaram-se requisições de performance?
Nessa cultura materialista, o paciente corre o risco de ser visto como um “equipamento com defeito” (visão mecânica do TER) em vez de uma biografia em sofrimento (visão humanista do SER).
A Inversão dos Impulsos:
O médico, exausto por jornadas desumanas e pelo peso emocional das patologias que se defronta, busca no status e no consumo imediato uma recompensa que o trabalho já não traz. É o “prazer de vitrine” tentando preencher o buraco da falta de propósito.
Para suportar a impotência diante da morte ou do sistema falho, cria-se uma armadura de onipotência.
O narcisismo isola o profissional, impedindo-o de se conectar verdadeiramente com o paciente e, principalmente, consigo mesmo.
O sistema médico muitas vezes trata o médico como uma máquina de produtividade.
Quando o conjunto de pensamentos, emoções, experiências e vivências particulares que formam o mundo interno do médico é ignorada, ele passa a operar no “automático”, o que é uma forma de morte simbólica da sua humanidade – A Institucionalização do Burnout.
Essa “anestesia” para o vazio existencial acaba gerando um ciclo vicioso: quanto mais o médico se afasta de sua essência para atender às demandas de um sistema mercadológico, mais vazio ele sente, e mais “anestésicos” (compras, redes sociais, busca por prestígio) ele consome.
É um cenário que pede urgência em resgatar o cuidado com quem cuida, movendo o foco do “ter” e do “parecer” de volta para o “ser” e o “sentir”.
Para onde caminhamos?
Para que não caminhemos para a exaustão, precisamos fazer investimento no “Sermos humanos”.
O progresso só faz sentido se servir de suporte para que a mente, a inteligência, a vontade e a liberdade possam florescer em um ambiente de dignidade ao médico.
O “ser médico” hoje, mais do que nunca, é um ato de resistência. É o profissional que olha nos olhos do doente e valida sua personalidade e afetividade.
É o maior investimento do médico é resgatar a humanidade que o progresso técnico, sozinho, não é capaz de proporcionar.
O Código de Ética Médica cita que: “a liberdade do médico, ou autonomia profissional, é um princípio fundamental”.
Entretanto temos que ter consciência de nossa liberdade com responsabilidade.
A Bioética surge justamente como a ponte necessária entre o “poder fazer” (técnica) e o “dever fazer” (ética). Ela é o freio e a bússola para a nossa liberdade com responsabilidade, garantindo que o progresso científico não atropele a dignidade humana.
A Bioética atua em três frentes fundamentais:
1.No Limite da Manipulação (Genética e Clonagem)
A liberdade de mapear genes e clonar células abre portas para a cura, mas impõe dilemas profundos.
2. A Proteção do Indivíduo (Órfão de Ninguém)
Ela garante ao “ser humano” gerado, que tenha o direito a uma identidade e ao afeto, preservando sua natureza humana.
3. A Ciência Dinâmica e os Quatro Pilares
Para administrar essa evolução sem sermos “atropelados”, a Bioética utiliza os princípios da:
Autonomia: Respeitar a vontade e a liberdade do paciente.
Beneficência: Fazer o bem (o progresso que beneficia a vida).
Não Maleficência: Jamais causar dano (evitar que a tecnologia seja usada para destruir ou excluir).
Justiça: Garantir que os avanços, sejam acessíveis a todos e não apenas a uma elite.
Grato.
Arthur da Costa Santos
Presidente do CRM-PA
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
1.Resolução CFM 2.217/2018 Código de Ética Médica
2. https://portal.cfm.org.br
3. https://cremepa.org.br
4. O Cursilho por Dentro: Ambientação e Esquemas. Revisado e Ampliado. São Paulo: GEN – Grupo Executivo Nacional do MCC. 8ª Edição (2022)